Fanfic : Alex e Amanda (Por Amandinha)



 Capítulo I




Amanda

Entrei no refeitório correndo. Aquele maldito professor de história resolveu prender eu e os meus colegas na sala e agora pode ser que eu perca meu precioso e último pedaço de pizza.
Fui para o final da fila andando a passos largos, mas não consegui frear meus pés a tempo e esbarrei no garoto que estava na minha frente. Ele me olhou com cara de poucos amigos e sorriu ironicamente.
- Está imitando um trem desgovernado? Porque se tiver, conseguiu alcançar a perfeição, esquisita.  – murmurou o cara, que começou a falar um inglês britânico desenfreado e sexy. Uma voz rouca que deixava qualquer ser humano normal louco e...
Espera aí. Ele estava me xingando em um inglês altamente sexy! Minha expressão mudou de embasbacada para pasma.
- Olha, amigão, comece a me xingar em inglês de novo e eu esfolarei seu lindo rosto no chão até não sobrar pele para contar história. – respondi num tom mais alto do que pretendia, chamando atenção de algumas pessoas que estavam na frente dele. – Educação é bom e eu gosto.
- Isso vindo de uma tampinha que mal consegue parar os próprios pés. Devo rir agora ou esperar a próxima piada? - Ele retrucou, erguendo o queixo e travando o maxilar, em uma clara pose de superior.

- Existe outro alvo ainda mais sensível que é fácil para baixinhas. Quer descobrir qual é? – fiz minha melhor pose de desprezo me sentindo a rainha do milho verde e me virei teatralmente.


Claro que, como eu não dou uma dentro, tropecei no pé de uma cadeira, frustrando minha ilustre tentativa de fazer uma saída dramática.

Típico!

Fingi que aqueles milhares de olhos não estavam sobre mim enquanto o idiota de plantão continuava murmurando xingamentos em inglês e segui andando, mantendo toda a dignidade que consegui. O que significa que eu estava irradiando fúria, constrangimento e vontade de desaparecer do mapa. Normal.

Coloquei o máximo de distancia que pude entre mim e aquele a metido à modelo britânico, sem nem ver para onde estava indo. Quando me dei da situação, estava em uma ala desconhecida da universidade, sem saber de onde tinha vindo e para onde iria, e, além de tudo, com o estômago roncando, já que aquele projeto de ser humano me fez esquecer sobre a comida. Ótimo, Amanda, maravilha. Além de nervosa está passando fome também. Tem jeito de ficar pior?

Claro, a resposta não poderia demorar.
Assim que virei um corredor, alguém trombou comigo e senti algo instantaneamente molhar minhas roupas. Olhei para baixo, em tempo de ver a lindíssima tinta amarela ensopando a minha blusa novinha. Droga. Droga. Droga. Sim, Amanda, você realmente parece à rainha do milho verde agora.

Levantei os olhos e dei de cara com o loiro irritante, metido e britânico, que se embolava num pedido de desculpas tentando limpar minha roupa com a própria blusa que havia tirado. Claro que eu nem reparei naquele peitoral sarado. Bem que eu poderia tirar uma foto e...

Foco Amanda, não é hora para pensamentos impróprios.

- Pare com isso, você está sujando ainda mais minha roupa! - Afastei-o com um safanão.

Querido destino, quando fará as pazes com essa pobre garota e parará de me castigar? Devo ter sido uma desalmada que matava cachorrinhos na outra encarnação, só pode!

- Desculpa. - Ele disse parecendo realmente constrangido, me encarando com aqueles olhinhos castanhos de gatinho arrependido.

Que isso? Um tipo de transtorno bipolar que só pessoas bonitas que me derretem como manteiga podem ter?

Ah, só pode estar brincando comigo. Alguém lá de cima me odeia. Eu sabia que devia ter ouvido minha preguiça essa manhã e permanecido na cama. "Sábia preguiça, não ignorarei seus avisos novamente!"

- Primeiro, me humilha no refeitório e me despreza completamente. Agora pede desculpas com essa carinha que você pensa que é fofa, mas não é. Acho que você deveria ser cobaia dos alunos de psicologia, porque você é um bipolar. – falei, sentindo as palmas de minhas mãos suarem. Acontecia quando eu mentia, mas ele não precisava saber disso. – Você esta gostando, não é? Aproveite isso. – Gritei, sem me importar com quem assistia a cena absurdamente constrangedora.

Dei um chute na sua canela, demonstrando paras as pessoas que eu estava no ápice da raiva e da infantilidade.

- Fumou maconha estragada, sua maluca? – exclamou o senhor “sou gostoso sem fazer força”. Ele estava agachado, passando a mão em sua canela e provavelmente amaldiçoando mentalmente todas as gerações da minha família.

Bem feito. Ninguém mandou ser um otário de primeiro escalão.

Acho que comecei a ficar zonza depois que o chutei, porque comecei a ver dobrado. Um clone dele o ajudava a levantar, me olhando com um olhar reprovador. Seria minha consciência em forma de um loiro gatíssimo e sarado tentando me ensinar boas maneiras?

Oh não, eu não estou vendo dobrado. Não. Não. Não. Deus, isso já virou sacanagem. Fechei os olhos e rezei para que um raio caísse na minha cabeça. De preferência um raio alienígena, que pudesse me desintegrar.

- A tampinha não se contentou em pisar no meu pé, e teve que chutar meu irmão. Droga, em que eu fui me meter? – o loiro com cara de mal humorado disse baixinho, mais para ele mesmo do que para mim.

O outro loiro olhou para o irmão com uma cara de riso e começou a gargalhar. Ok! Vamos separar cérebro: mal humorado é o do refeitório. Bem humorado é o da tinta. Simples.

- Parabéns, Alex – o bem humorado respondeu gargalhando. – Ela é uma gracinha.

O olhar afiado que o mal humorado lançou para o irmão foi de dar arrepios na espinha. Quando o miss simpatia saiu sem nem me confrontar - amém, Senhor-, aqueles olhos intimidadores e malvados pousaram em mim, vermelhos de raiva.

O loiro pegou os meus pulsos e me arrastou para o estacionamento da universidade.

- Ai, calminha aí. Lei Maria da Penha serve para prender patifes como você, que puxa mocinhas indefesas com brutalidade, sabia?

Alex – ou seja qual for o nome do ser humano irritante – me soltou e me encarou, soltando fogos pelas narinas. Nossa Senhora da Bicicletinha, ele era bonito até com raiva. Ok, concentração Amanda, não se distraia com coisas banais.

- Já parou com o seu showzinho de circo? – disse Alex, com o tom de voz mortalmente baixa. Parecia que um espírito maligno iria baixar nele a qualquer instante.

- A culpa é toda sua! Quem mandou ter um irmão gêmeo mais distraído que eu? Na verdade, eu mereço um pedido de desculpas por ser tratada de forma tão grosseira.

Antes de Alex continuar a discussão, que já estava ficando patética, dei de costas e gritei:

- Quer saber? Poupe sua saliva. Não preciso de pedidos de desculpa de um arrogante metido a bonitão.

Pude escutar Alex pedindo para me esperar, mas continuei andando como a rainha da Inglaterra. Para o meu incrível azar, uma onda de tontura tomou conta do meu corpo, me fazendo cambalear em cada passo que eu dava.

Minha visão ficou turva e a última coisa que eu senti foi um par de braços fortes me segurar com força.



Alex 

Peguei a baixinha nos braços antes que ela caísse com tudo no chão e a fitei com um misto de preocupação e culpa. Eu não deveria ter sido tão rude, mas ela conseguia me irritar até a última potência, ao mesmo tempo em que eu inalava seu inebriante cheiro. Não era enjoativamente doce, como os das outras consortes pareciam ser. Era limpo... Lembrava a floresta logo após a chuva, aquele cheiro levemente adocicado de ervas, tranqüilidade e terra molhada.

Sentir aquilo fez com que minha irritação se evaporasse e o tigre em mim se agitasse em meu estômago, querendo libertar o meu rugido, querendo tomá-la ali mesmo.

O que eu estava pensando? Nem pensar que eu iria me transformar em um tigre babão e perseguidor de consorte. Eu era bem melhor do que isso. E, no fim das contas, ela já deve estar caidinha por mim, então eu nem vou me dar ao trabalho de conquistá-la.

Coloquei o corpo frágil e inconsciente da tampinha no banco de trás do meu Jeep e a levei até a casa do meu primo, Benjamin Tarkovisky.

Quando chegamos, peguei a menina no meu colo de novo e levei era para dentro de casa, quase batendo de frente com Benjamin e sua consorte, Ana Sofia.

- Deveria perguntar o porquê de você estar carregando uma completa desconhecida nos braços? – indagou Benjamin, sorrindo ironicamente. É, ele já tinha sacado o que estava acontecendo.

- Não pergunte. – murmurei, passando pelos dois e indo para a cozinha.

Deitei o corpo da minha consorte no balcão de granito e fui ate a geladeira pegar alguns ingredientes para fazer uma sopa. Não, eu não sou um Tirp babão, só não quero ninguém me enchendo à paciência porque não cuidei dessa desastrada aí.

E sim, eu sou um ótimo cozinheiro.

Quando me virei, dei uma boa olhada das características físicas da menina. Pele morena, cabelos pretos e repicados, dando um pouco de volume e vivacidade nas ondas, traços delicados, e é claro, baixinha. Provavelmente 1,55.

Quando me vi pensando demais nela de novo, revirei os olhos e coloquei os ingredientes na pia. Parece que ignorar o que parecia ser irresistível iria ser mais difícil do que eu pensei.


Amanda

Acordei sentindo um cheirinho delicioso de comida caseira. Meus olhos queriam abrir, mas a preguiça me dominava. O que eu deveria fazer? Comer ou dormir? Perguntinha difícil.

Resolvi optar por abrir os olhos mesmo e assustei quando vi que aquela não era a minha casa. Na verdade, era chique demais para ser meu humilde apartamento.

Olhei para os lados procurando alguém, e vi Alex, o ser humano mais idiota e mal educado do mundo, cozinhando.

Ah, claro, super normal você acordar vendo o cara que você odeia cozinhar.

Será que ele tinha me sequestrado? O que ele queria comigo afinal? Provavelmente estava irado, e esperou eu acordar para arrancar as minhas entranhas. E me forçar engolir elas. Ou pior: usá-las para oferecer a algum deus antigo para continuar jovem e lindo pelo resto da eternidade.

Tentei sentar na bancada, mas minha cabeça deu pequenas pontadas de dor, me fazendo reclamar baixinho.

Alex se virou na mesma hora para me encarar com aqueles olhos castanhos maravilhosos. E com os cabelos loiros sedosos. E com aquela boca levemente rosada e convidativa para dar uns beijinhos. E aquele corpo de dar inveja nos feiosos.

Parabéns, Amanda. Vergonha na cara passou longe, hein.

Desconectei nossos olhares e disse:

- Ótimo, além de me irritar, me fazer cair no refeitório, me fazer chutar o seu irmão, ainda me sequestra? Lindo dia para botar fogo em você, não acha?

Alex variava sua expressão do perplexo ao irritado. Ele fechou os olhos, provavelmente tentando não perder a calma comigo, e abriu de novo, tendo agora uma feição neutra.

- Você desmaiou, e como eu sou um verdadeiro gentleman, te trouxe até a minha casa e te fiz uma sopa. Perguntas? – seu olhar de superioridade me fez querer vomitar ali mesmo. Esse cara era um ser odioso e convencido. Nunca vi igual.

- Eu nunca tomaria essa sua sopa nojenta. Nem para lavagem ela serviria. – respondi ácida, descendo da bancada, mas sentindo meu corpo vacilar. Droga de fraqueza.

Alex me pegou e, com facilidade, me sentou de novo. Seu olhar dizia que eu estava sendo uma grande inconveniência para ele.


- A receita é um segredo de família muito especial. Não seja tão orgulhosa. Tome a sopa. – disse, tentando soar o mais educado possível.

Resolvi não responder enquanto ele colocava a sopa de um tom verde-vomito asqueroso em um prato. Olhei para aquela gororoba já me sentindo enjoada. Ótimo, agora ele quer me envenenar e me matar lentamente.

Quando o encarei, ele sorria de forma descarada, provavelmente rindo da minha cara de nojo.

- Nunca julgue algo que você não sabe o que é. – disse Alex, me entregando o prato junto de uma colher.

Respirei fundo e tomei uma boa colherada daquela coisa gosmenta.

- Tão ruim assim? – indagou Alex, com uma cara de quem precisava da minha aprovação. Quanta bipolaridade.

- Na verdade, ta uma delícia. – murmurei, falando comigo mesma e arrancando um sorriso de satisfação do convencido. A sopa tinha um gosto diferente, como se tivesse juntado dentro dela tudo o que eu mais gostava e cozinhado em uma panela.

Tinha gosto de felicidade e energia!

Eu poderia até ter falado que estava ruim para tirar esse sorriso metido da cara do Alex, mas em relação à alimentação, eu nunca poderia mentir. Eu não sou injusta com comida, ok?

Em poucos minutos, eu havia tomado um prato de sopa inteirinho.

Ok, mentira. Eu tomei dois. Em minha defesa, estava muito bom. E só Deus pode me julgar.

- Não sei se você já reparou, mas você come assustadoramente bem. – disse Alex. Claro que ele disse isso para não falar que eu como mais que um elefante africano. – Como você mantém o seu peso?

- Não que isso seja da sua conta, mas é óbvio que eu tenho métodos que não me deixam engordar. – isso se muita oração e sorte forem consideradas como métodos eficazes. Mas ele não precisaria saber disso. – Obrigada pela sopa, - murmurei desconcertada, já que nos últimos minutos ele foi incrivelmente gentil.

Ele passou a mão na boca tentando não sorrir. E é claro que o meu subconsciente achou aquilo incrivelmente charmoso.

Acho que essa sopa está afetando meu cérebro.

- Venha, vou te dar uma carona para casa. – Alex pegou as chaves do Jeep e começou a caminhar até a porta, me puxando pelo pulso. Mas não de forma agressiva. Apenas com um pouco de pressa.

Assustei quando olhei para o céu e vi que já era noite. Meu Deus, eu fiquei desacordada por quanto tempo?

Coloquei a mão na porta do carro e encarei Alex. Por que ele estava sendo tão gentil? Ninguém cozinha sopa para uma pessoa e oferece carona para ela de graça.

Regra número um do papai: nunca confie em estranhos. Principalmente quando são lindos como modelos e tem transtornos de bipolaridade.

- Algum problema? – indagou Alex.

- Por que tanta gentileza? De dia, você me olhou com desprezo e agora está perfeitamente normal. Aposto que você está tramando me matar e jogar meu corpo na lata de lixo. – semicerrei os olhos e cruzei os braços em torno do meu peito.

- Não fique se achando tanto, nanica. Eu só fiquei com pena de você porque estava desmaiada. Amanhã nós dois vamos esquecer tudo o que aconteceu hoje e você vai seguir com a sua vida e eu com a minha. – Alex tratou de usar seu tom de voz mais glacial. Não que eu tivesse ficado magoada, mas...

Eu fiquei só um pouquinho – um pouquinho mesmo, quase nada – magoada. Não que eu achasse que depois desse episodio nós viraríamos amiguinhos.

- Ok. – respondi seca e entrei no carro.

O caminho foi silencioso e quando chegamos à minha casa, ele saiu do carro e fez a questão de abrir a porta para mim. Mas nem olhou na minha cara.

Depois são as mulheres quem são loucas.

- Você vive nesse lugarzinho? – perguntou Alex, ríspido, olhando para os lados como se alguma gangue fosse surgir do nada e sair matando todo mundo.

O bairro não era tão ruim. Só era perigoso. E o meu apartamento não era pequeno. Só parecia uma caixinha de fósforo.

- Nem todo mundo é rico como você. – revirei os olhos e comecei a caminhar até a porta do prédio, mas fui impedida por um par de mãos me puxando pela cintura. – Dá pra me soltar e me deixar ir?

- Você vai ficar bem? – a preocupação era visível em sua face. Vou recomendar um psiquiatra para esse pobre ser.

Desvencilhei-me dos braços dele e fui para a entrada do prédio.

- Eu sempre fico bem. – respondi. – Até algum dia desses, Alex.

- Espera.

- O que?

- Eu não sei o seu nome.

- E precisa saber? – soei mais dura do que pretendia, mas ainda estava meio chateada pelo “amanha você segue com a sua vida e eu com a minha”. Poxa, eu sou sensível.

Subi as escadarias sem olhar para trás, entrei no meu apartamento e bati a porta.

Por que eu estava me sentindo tão mal? Que droga.


Capítulo II


Alex

- Isso, você, Scott e Israel vão vigiar esse prédio. Se alguém suspeito passar, não pense duas vezes e mete bala. Eu sei que isso é contra as leis, mas quem se importa? Só faça o serviço, eu estou te pagando, imbecil. – gritei, desligando o telefone. O que uma pessoa tem que fazer para proteger outra?

Não que eu esteja preocupado com a nanica. Só não quero que ela apareça morta em algum beco por aí.

Luca estava encostado no batente da porta, me encarando com um sorrisão de dar nos nervos. O que ele queria, afinal de contas?

- Hm, para quem falou que nunca ficaria correndo atrás de uma consorte boba, você parece bem preocupado. – falou Luca, rindo. Aquele patife.

Se ele soubesse o que é ter uma consorte, saberia o significado real de agir por instinto.

- Meus assuntos não são da sua conta. Vai cuidar da sua vidinha patética, vai. – murmurei, jogando o celular no colchão e massageando minhas têmporas.

A vida sem consorte era bem melhor. Mas agora, parece que tudo se tornou sem sentido sem ela. E eu nem sei seu nome. Como eu nunca reparei nela na Meriel?

Isso não importa muito agora. Eu precisava ver ela mais um pouquinho.

Resolvi sair de casa. Peguei o Jeep e acelerei até chegar ao quarteirão do prédio da baixinha doida. Estacionei um pouco antes de sua casa, para não dar muito na cara.

Entrei no prédio – que não tinha nenhum segurança, que absurdo! – e não vi nenhum dos homens que eu contratei para vigiar o lugar. Ou eles estavam muito bem camuflados ou eram incompetentes.

Consegui farejar seu cheiro de ervas, levemente adocicado, no terceiro andar, e fui seguindo como um cachorrinho.

Apartamento 33. Com certeza, era o apartamento dela.

O fato de ela não ter trancado o apartamento me deixou frustrado. Claro, um ser como ela que só pensa em comida e passarinhos verdes nunca se preocuparia com um estripador, ou um assassino...

Ou em um тигр  louco que mal consegue diferenciar o certo do errado quando sente o seu cheiro.

Vasculhei cada canto da casa procurando a menina. O que não foi difícil, já que era um cubículo abafado.

Encontrei-a deitada na cama, com a televisão ligada e abraçada a uma barra de diamante negro. Bom, agora ninguém pode ter dúvida nenhuma que ela era boa de garfo.

Na TV passava um filme de romance choco, e pelo jeito, ela esteve chorando. Deduzi isso pelo fato de que na cama, também tinha montes de lencinhos de papel usado. Ela estava descoberta e encolhida como um filhotinho de gato.

Peguei os lencinhos e joguei no lixo do banheiro, guardei a barra de chocolate na geladeira, desliguei a televisão e cobri-a com uma colcha de retalhos.

Fiquei a encarando embasbacado. Eu tinha que fazê-la minha.

Amanda

Eu posso ser até fraca da memória, mas eu me lembraria se eu tivesse guardado uma barra de chocolate na geladeira. Com toda certeza do mundo.

Não que isso fosse um grande dilema, mas foi estranho. Será que eu sou sonâmbula?

Marie – minha gatinha persa que mais parece uma vira-lata perambulando pelas ruas da cidade – chegou do seu passeio noturno e se enroscou nas minhas pernas, soltando um doce ronronar. Acariciei sua cabeça e peguei-a no colo.

- Não vou mais bater na mesma tecla com você. Se você quer sair passeando por aí, namorando gatinhos de rua, não vai ser eu que vou impedir. – falei, dando um beijinho em sua cabeça e soltando ela, para que fosse direto para a vasilha de ração.

Tal mãe, tal filha.

Peguei a barra de chocolate na geladeira, e saí correndo para a universidade. Eu estar atrasada não era lá uma grande novidade.

Chegando lá, avistei Clarissa. Acenei para ela e fui ao seu encontro. Ela exalava exaustão e tinha olheiras enormes. Parece que ela estava tendo dificuldades no curso de direito.

- Ontem você simplesmente foi embora sem dar satisfação. O que aconteceu? – ela indagou, com seus olhos azuis piscina morrendo de curiosidade.

- Apenas fatos estranhos que geralmente acontecem comigo. Nada de muito extraordinário. - murmurei, andando distraída e trombando de frente com um muro de músculos.

Desequilibrei um pouco, mas Clarissa segurou meus braços antes que eu caísse como uma jaca podre no chão.

Quando vi quem era o fulano em que eu esbarrei, vi quem não desejava.

Alex, aquele que se achava o Brad Pitt britânico, sorria ironicamente para mim. Provavelmente sua mente queria que eu me estatelasse no chão. Se bobear, ele gritaria “MADEEEEEEEIRA!”, para me fazer ficar mais sem graça do que eu já estava.

Ele tinha esse dom.

- Sabia que ficar parado no meio do corredor feito uma coluna grega pode gerar acidentes? – disse, devolvendo o sorriso de escárnio para ele.

- Quem estava andando e ao mesmo tempo pensando em unicórnios e cogumelos era você, e não eu.

Antes que eu pudesse retrucar, ele me empurrou e continuou andando como se nada tivesse acontecido. Que grosso! Se eu fosse a mãe dele, daria umas boas palmadas no seu bumbum.

E que bunda que ele tinha, pensei, enquanto olhava ele andar, se achando o rei da superioridade. Amanda, chega de olhar a retaguarda avantajada de pessoas insignificantes.

Antes de o sinal bater, meu celular começa a espernear em alto e bom tom.

- O que? – Atendi, rezando para que a aula não começasse enquanto eu estivesse no telefone.

- O que está fazendo agora? – Só podia mesmo ser a Julia para esquecer que eu tinha aulas e que nem todo mundo é noiva de um ricaço, como ela... Que por sinal era tão russo quanto o loiro que estava conversando com a sua cópia do meio do corredor.

Virei para a direção oposta, já que não era saudável esbarrar com seres marrentos, loiros e com um sotaque russo e inglês inconfundível.

- Estou cultivando uma plantação de maconha no terraço da minha casa. – ironizei. – Claro que eu estou na Meriel. – provavelmente Julia estava revirando os olhos.

- Que tal a gente pegar um cineminha? Eu e você. Você e eu. Daqui a meia hora, no shopping. – ela respondeu, ignorando a minha maconha.

- Na última vez que a gente foi no cinema, eu acabei ficando de vela enquanto você e o seu noivinho davam uns amassos quentíssimos bem do meu lado. Vergonha na cara mandou um abraço para vocês dois.

- Calma, prometo que isso não vai acontecer.

Julia falando que não vai pegar seu noivo gostoso? Tem alguma coisa muito errada com essa garota.

- Ok, já estou saindo daqui. – respondi, já desligando o telefone e correndo para Clarissa. Ela conversava com um menino de óculos.

Cheguei toda espalhafatosa, interrompendo a conversa:

- Estou de saída, avisa pros professores que eu to doente.

- Mas você não está doente. – murmurou, com cara de santinha.

- Nossa, é mesmo? Obrigada pela valiosa informação. – exclamei. Às vezes essa menina conseguia ser mais lenta do que eu. - Só inventa uma desculpa. Tchau, nerds. - Gritei, acenando para o garoto de óculos também.

Fui até o estacionamento da universidade, peguei meu carrinho velho e acelerei até o shopping.

Alex

“Não se pode tirar os olhos por 15 segundos daquela baixinha que ela desaparece”, pensei enquanto vasculhava os corredores pela milésima vez. Estava perdendo aula por culpa da nanica.

 Senti o meu telefone vibrando no bolso da minha calça.

- Alô – atendi ríspido e com um mau humor palpável.

- Encontrei sua consorte, senhor. – identifiquei a voz do Scott, um dos seguranças que contratei para seguir a menina. – Ela está no shopping com duas mulheres. As duas trouxeram o que parecem ser seus namorados e tem dois homens conversando animadamente com ela. Ah, descobri que o seu nome é Amanda.

Apertei o telefone com tanta força que achei que ele iria virar farelo em minhas mãos. Desliguei na cara do Scott e comecei a caminhar pisando duro, não antes de esmurrar um armário.

- Se não é o mais novo bobo apaixonado tentando destruir um patrimônio da escola... O que a sua consorte fez dessa vez? – meu primo me olhava com um sorriso irônico.

- Agora não, Benjamin. - Praticamente cuspi, correndo para meu carro.

O que aquele anjo projetado para atitudes demoníacas estava fazendo no shopping com uma prole masculina quando deveria estar quieta na sala de aula estudando onde poderia ser vigiada sem suspeitas? Minha mente repetia enquanto pisava no acelerador. O que aquela nanica tem na cabeça? Com certeza não um cérebro. Talvez um pedaço de pizza ou uma tigela de sopa...

Saí da Meriel e fui direto para o shopping, para procurar a peste.

Chegando lá, fiquei com tanto ódio que senti que hoje algum inocente iria morrer. Amanda estava de costas, rindo e conversando com um homem que eu, no momento, queria arrancar as entranhas.

Quando cheguei mais perto, fiquei estático. Julian e Marco Zirkov, andando com suas consortes e conversando com a minha.

Para o azar de todo mundo, minha paciência já tinha chegado ao limite com a baixinha. Semicerrei os olhos e caminhei a passos largos até ela.

Quando cheguei por trás dela, todos pararam de rir de repente e me encararam. Apenas Amanda continuava gargalhando. Era uma boba alegre mesmo. Com a risada mais linda do mundo.

Mas hoje ela iria ver o que é ser divertido.


Amanda 

Achei estranho todo mundo ter parado de rir de repente, como se tivesse visto uma assombração. Virei para encarar o que eles estavam olhando, e bati com a cara em alguém.

Esse alguém me pegou pelos braços de um jeito brusco e me saiu arrastando. Foi tudo tão rápido que eu nem pude ver seu rosto direito até chegar ao estacionamento do shopping.

Claro que era o loiro aguado, arrogante e idiota que amava me irritar. Não é porque ele é gostoso que ele pode tudo. Povinho abusado.

- Então, te peguei no flagra. – falou Alex, com um cinismo que me deixou louca.

- Flagra? Não sabia que era crime ir ao shopping com amigos. – ironizei, quase cuspindo fogo de tanta raiva. Será que esse lunático estava achando que era meu dono?

- Amigos? Você rindo e se insinuando para outro homem não é coisa que amigos fazem com os outros. – Alex parecia estar com mais raiva do que eu.

- Você tem problemas psicológicos? Meu Deus, por que eu? Logo um lunático psicótico na minha vidinha humilde. – quando acabei de falar, Alex surtou geral. Pegou-me e me colocou em suas costas.

A principio não reagi. Fiquei em choque. Não, isso não esta acontecendo. Isso  deve ser uma pegadinha.

- Ok Julia, muito engraçado. – gritei, atraindo olhares de algumas pessoas. – Agora as câmeras podem aparecer e falar que isso foi uma pegadinha. Pode me soltar, senhor ator. – murmurei dando tapinhas em seu lombo e rindo.

Ele não respondeu e me jogou no banco da frente do seu Jeep, me prendendo no cinto de segurança e trancando a porta. A coisa agora estava ficando séria.

- Então, Alex, - perguntei tímida enquanto ele dava a partida no carro com cara de pouquíssimos amigos. – você vai me matar, vender meus órgãos ou algo do tipo? Porque se for, não me torture. Acho nojento e desnecessário. E você não faz o tipo de que gosta de ver as pessoas sofrendo. – dei um sorrisão, mas ele foi ofuscado pelo silêncio do loiro.

Meu Deus. E se ele realmente estivesse pensando em me matar?

À medida que a gente ia entrando na rodovia e se afastando da cidade, eu ficava mais preocupada. O fato de ele estar estranhamente calado também me desesperava. Ótimo, estou nas mãos de um psicopata.

Lembrei do meu celular. No bolso da minha calça. Tateei meu jeans até encontrar ele e suspirei aliviada. Ótimo, agora só ligar para a minha querida salvadora da pátria. Julia. Ela sabia o que fazer. E também tem um noivo que parece ser da máfia dos modelos bonitos, ele com certeza teria alguns contatos para acabar com a raça desse idiota.

Digitei o número da Julia sem medo de ser feliz, enquanto sentia os olhares do maníaco sobre mim.

- AMANDA, SUA DESNATURADA. – gritou Julia no telefone, quase me deixando surda. – O que aconteceu? Quem era aquele? Pelo amor de Deus menina, ta querendo me matar do coração?

- Calma! Estou te ligando para pedir uma carona, já que um lunático da universidade me raptou e... – quando fui completar a frase, Alex pegou o meu celular e esmagou com apenas uma mão, sem tirar os olhos da estrada.

Olhei para ele perplexa. O que aquele cara tinha na cabeça? Minhocas radioativas?

- Olha amigo, você vai ter que me pagar outro celular.

- Dinheiro não é problema.

- Nossa! Ok então, poderoso chefão. – a arrogância desse garoto me irrita, meu Deus. – Mas antes de você me matar friamente, eu queria saber o que eu fiz de tão errado? Se é Deus me mandando um recado para eu começar a ir à igreja, eu já entendi. Vou começar a ir todos os domingos, beleza?

- Para de falar. – murmurou Alex, pausadamente. – Meu Deus, você deve ter engolido um papagaio quando era pequena.

Fechei a cara e fiquei olhando a paisagem para a janela. Odiava quando me mandavam calar a boca, odiava mesmo.

Ele me olhava de vez em quando, parecia arrependido, mas continuei com minha cara de não-ligo-para-você.

Ele entrou em uma estradinha de pedra que dava em uma fazenda. Na entrada tinha uma placa de madeira dizendo: Fazenda Raio de Sol. Seja Bem Vindo.

- Nome simpático. Diferente de certas pessoas. – resmunguei, fazendo com que ele olhasse para mim e pelo reflexo da janela do carro pude ver que ele sorria.

Idiota.

O carro foi estacionado e um casal de velhinhos saiu da casa. Ou melhor, uma mansão e tanto. Moderna demais para um lugar tão longe da cidade. Avistei uma baia para cavalos do lado esquerdo da fazenda e fiquei morrendo de vontade de ir lá.

Alex me pegou pelo pulso e me puxou até a entrada da casa, não antes de passar por um casal de idosos murmurando um “Agora não”. Meu Deus, nem com velhinhos aquele garoto era sensível.

Ele continuou me puxando de forma brusca até chegarmos ao andar superior da mansão, e me jogou dentro de um quarto qualquer. E o pior: o quarto tinha uma decoração de borboletas coloridas irritante.

Borboletas na parede. Borboletas na cama. Borboletas até no abajur.

- Você me seqüestrou para me manter em um quarto cheio de borboletas estúpidas, sendo que eu não suporto essas coisas nojentas? Que ótimo. Pode me matar agora.

- Que tipo de ser cruel não gosta de borboletas?

- Um tipo de ser que já viu a própria casa sendo infestada por um monte delas e botando muitos ovinhos nojentos. – fiz uma cara de desprezo e sentei na cama.

- É a natureza. – murmurou irritado. Ótimo, não vem me dizer que ele é apaixonado por bichos nojentos.

- Ok, homem clorofila.

Ele me encarou com uma clara irritação nos olhos e saiu do quarto, batendo a porta.

Grosso, rude, idiota, metido, arrogante. Vamos ver quais outros defeitos eu posso arranjar para ele durante o dia.

Resolvi sair do quarto e ver como eu poderia ir embora daqui o mais rápido possível. Que tipo de pessoa seqüestra uma inocente no shopping e a traz para uma fazenda adorável? Só um psicótico.

Enquanto andava pelo corredor fazendo pouco barulho, trombei com uma versão Alex sorridente, que obviamente não era ele.

- A baixinha que me bateu! Como posso ajudá-la? – disse de forma cortes, mas escondendo um sorriso. – Meu nome é Luca.

- Amanda. – peguei sua mão e a chacoalhei com vigor, tentando parecer educada. Provavelmente dei a entender que cumprimentava como um homem. – Fui seqüestrada no shopping, tive meu celular quebrado e tem uma amiga desesperada atrás de mim. Seria de grande ajuda se você me tirasse desse lugar.

Luca coçou o queixo e olhou para cima, pensando.

- Que tal eu te mostrar a fazenda e depois você dar uma voltinha por aí. Respirar o ar puro e natural daqui, resfriar a cabeça... Suponho que você esteja irada com o meu irmão.

Nossa, é mesmo, amiguinho? Descobriu isso sozinho?, pensei irônica, mas me limitei a dar um sorrisinho falso e acompanhar ele até o quintal da fazenda. Ser mal educada agora não iria me trazer benefício algum.

Luca me pegou pelo braço e me puxou, me levando primeiro para o vasto jardim do lugar.

Alex

Fui para a estufa de plantas para tentar acalmar meus ânimos. Não poderia assustar mais ainda a consorte, eu estava sendo extremamente rude. O que está acontecendo comigo? Isso não é certo.

Caminhei por entre as fileiras de flores, observando cada uma delas com atenção. Continuavam na mesma, todas desabrochadas e lindas.

Lindas como o pôr – do - sol. Lindas como cavalos selvagens correndo livremente por campos abertos. Lindas como a Amanda.

“Aquela baixinha... Como não gostar dela?”, pensei, encarando uma gardênia, porém com o pensamento em outro lugar.

Escutei vozes e risadas vindas do quintal. Meu rosto passou de normal para vermelho quando percebi o que acontecia: Luca com a minha –somente minha- consorte, a fazendo rir. Esse era a minha obrigação. Se a vovó visse isso, me daria uns bons tapas.

Sai da estufa com raiva e corri atrás deles.

- Hey! – gritei a plenos pulmões, fazendo Amanda e Luca virarem assustados. Não consegui fitar a Amanda com raiva, então dirigi meu olhar ensandecido apenas para meu irmão. – Ela é minha convidada. – murmurei, chegando mais perto dos dois.

- Não seria refém? – Amanda respondeu com ar de inocência, mas ela nunca conseguia desfazer as feições de diabinha quando tentava me irritar.

- Só estava fazendo um pequeno tour com a sua... Amiga. – Luca deu uma piscadela antes de falar, me fazendo revirar os olhos. – Vou deixá-los a sós.

A menina soltou uma bufada de insatisfação e sorriu falso para mim. Retribui o sorriso com irritação e ficamos por um minuto sem dizer nada.

Amanda

Aquele silêncio infernal estava me matando. Mas eu não iria ceder, não mesmo. E parecia que Alex também continuaria como um túmulo por um bom tempo.

Não fale nada. Não fale nada. Não fale...

- Então... – murmurei baixinho, fazendo Alex sorrir vitorioso. Na batalha do silêncio, como sempre, eu havia perdido. – Vai me levar para casa agora? Não sei se você sabe, mas provavelmente tem pessoas me procurando neste exato momento.

- Antes, - disse Alex – eu tenho que te mostrar uma coisa. – ele estendeu a mão para mim, e fiquei receosa de aceitá-la. Mas mesmo assim, peguei e deixei ele me conduzir até uma estufa.

Fiquei encantada. Eram tantas flores maravilhosas. Estava tão estupefata que nem reparei no relatório que Alex dava em cada flor que a gente passava. Claro que eu não reconhecia nada daquilo, mas fingia entender tudo.

O que a gente faz para não pagar mico!

- Essa daqui, - disse ele, apontando para a flor – é chamada Pássaro do Paraíso. Minha predileta. Ela pode simbolizar liberdade, alegria... Ou até mesmo o romance.

Não sei por que raios minhas bochechas começaram a formigar. Não é uma boa hora, amiguinhas rechonchudas!

- Ela é linda. – falei, observando suas pétalas de cores amarelas, com partes azuis, brancas e até um pouco avermelhadas, fazendo o formato de um delicado pássaro.

Virei para encarar Alex enquanto ele analisava a flor. Deveria ter feito isso milhões de vezes. Mas quando ele fazia, havia uma coisa em seus olhos castanhos que o deixavam mais bonito. E até simpático.

Só percebi que o olhava com uma cara abobalhada quando ele começou a me encarar com um sorrisinho irônico. Resolvi falar alguma coisa antes que ele voltasse a ser metido e chato.

- Por que você gosta tanto de flores? – disse, atropelando as palavras e o fazendo rir. Ótimo, agora sim fiquei mais idiota ainda. Senti minhas bochechas formigando de novo e olhei para frente, desviando do seu olhar.

- Flores são especiais. Mesmo elas sendo da mesma espécie, cada uma tem o seu aroma, que atrai as abelhas. São como as mulheres. Elas têm um odor em especial que consegue deixar os homens loucos. – senti seus olhos em mim, mas ignorei. Provavelmente, no momento, o único cheiro que eu tinha era de sabonete, já que tinha me esquecido de passar perfume de manhã.

Mas não consegui deixar de me sentir sem graça.

- Acho que já está na hora de você me levar para a casa. – quando falei, minha voz saiu meio hesitante.

A verdade é que o dia fora péssimo, mas o final estava sendo bom. E de certa maneira, eu não queria ir embora.

- É, - ele passou a mão no cabelo e me olhou irônico. – aquela sua amiga e seus diversos namorados devem estar loucos te procurando.

Encarei-o inexpressiva.

- Você é um ridículo mesmo. – gritei irritada. - Meus namorados! – exclamei irônica e pasma ao mesmo tempo. – Só me leva embora, ok?

Saímos da estufa pisando duro e mal suportando olhar para a cara um do outro. Ótimo, agora a culpa era minha se ele sabia estragar momentos agradáveis. Em um segundo, tudo estava bem, e agora ele resolveu surtar. Que lindo.

Avistei Luca no estábulo dos cavalos antes de entrar e acenei para ele. Alex apenas me olhou de soslaio.

- Amanda, Alex, venham aqui. – gritou Luca, acenando com a mão, todo espalhafatoso.

Alex e eu nos entreolhamos com raiva e reviramos os olhos um para o outro. Caminhei na frente, deixando o senhor mal humorado para trás.

- Então, conversaram sobre o que? – disse Luca, alisando um cavalo preto sem me olhar.

Olhei para trás e vi que o gêmeo do mal estava entrando em casa, todo estressadinho.

- Primeiro sobre flores. Depois sobre cheiro de mulheres e flores, que eu não entendi nada. E depois ele falou que eu tinha muitos namorados. E agora eu quero ir embora. Seu irmão é um mal educado bipolar, sabia?

Luca deu uma crise de risos, com direito a lágrimas quando eu acabei de falar. Agora eu sou motivo de piadas da família do idiota. Bem que poderia ter um buraco para me enfiar a minha cabeça.

- Ele não é bipolar. Ele só é confuso. – explicou Luca.

- Isso não seria a mesma coisa?

- Não. – disse rindo. – Venha, eu te levo para casa.

Capítulo III

Luca avisou a Alex que iria me levar embora, e ele respondeu apenas com um rosnado. No que eu entendi que seria um não, Luca apenas sorriu e acreditou que era um sim.

Ele me deixou na porta do prédio, não antes de gritar um “te vejo na universidade”. Entrei sem nem me lembrar de cobrar Alex, o rei da má educação, que ele me devia um celular novo.

E é claro que eu estava pensando seriamente em fazer uma ocorrência na polícia. Não é só porque é bonito que possa sair seqüestrando meninas indefesas.

Abri a porta do meu apartamento e acendi as luzes, quando me assustei com a visão de Julia e Julian sentados no sofá, com um rosto sem nenhuma expressão, parecendo mafiosos prestes a quebrarem meus pés por não ter pagado alguma dívida.

- Amanda. – murmurou Julia friamente, se levantando. – Onde você estava, sua capeta. - Julian continuava com uma expressão congelada, que começou a me apavorar.

- Gente, eu posso explicar...  Não, na verdade eu não posso, uma vez que ainda não entendi o motivo daquele loiro estúpido me sequestrar e descontar sua raiva em mim, além de ter crises bipolares em que em um segundo fala sobre flores e sua paixão por elas e em seguida surta sobre meus diversos namorados que só existem na cabeça dele. – falei sem nem respirar, atropelando algumas palavras.

Julian e Julia se encararam sérios e de repente, caíram na gargalhada. Os olhei com raiva. Eu era motivo de piada para todo mundo, que droga.

- Esses TNrps... – falou Julian baixinho, olhando para a Julia. Só falta ele começar a usar expressões russas estranhas.

- Acho que esses seqüestros vão ficar freqüentes de agora em diante. – ela respondeu, ignorando completamente a minha presença na sala.

- Agora que os dois já riram bastante da minha cara, já falaram uma palavra russa muito esquisita e já me chamaram de capeta, podem ir. – abri a porta e esperei que os dois saíssem.

- Sua educação me encanta. – disse Julian irônico, sem nem se mexer no sofá.

Ignorei-o e olhei para Julia.

- Eu queria conversar com você. – quando vi que Julian nem se moveu, plantado como uma bananeira velha no sofá, olhei para ele e sorri falsa. - A sós. - ele se limitou apenas a me encarar com aquele olhar superior que parecia que iria me estripar só de pensar que eu queria separar ele da noiva.

Que medo!

- Claro que eu saio. – sorriu educado. - Se você conseguir me arrastar porta afora. Fique à vontade.

Dei uma olhadinha no seu corpo de mais ou menos um e oitenta e desisti de tentar. Ele me esmagaria fácil.

- Julian, é melhor a gente ir. – disse Julia, com um olhar repreensivo para ele. O homem apenas deu de ombros. – Me liga depois. A gente conversa melhor.

- Se eu tivesse um celular. – respondi.

- Você dá um jeito. Tchauzinho. – Julian puxou Julia pela mão e arrastou ela corredor afora. A última coisa que ouvi ela gritar foi um me liga.

Fechei a porta e agradeci mentalmente por não ter ninguém para me incomodar mais. Fui tomar um banho relaxante, vesti meu pijama e deitei na minha cama.

Antes de cair no sono, não pude deixar de pensar no Alex. Deus, como ele era estranho.

**

Claro que depois da ótima noite de sono que eu tive, eu acordei atrasadíssima. E lá estava eu, correndo pela Meriel, parecendo um mamute desgovernado. Atropelei várias pessoas até chegar à aula de História da Arte. Assustei quando fui recebida por um sorriso do loiro que provavelmente era o gêmeo bonzinho. Luca.

- Senta aqui do meu lado. – Luca puxou uma carteira para perto dele, e sentei sem graça.

- Que coincidência você ter a mesma aula que eu. – sorri polidamente.

- O curso de artes exige que peguemos aulas de história da arte. - ele deu de ombros e fez uma carinha de malandro. - bom saber que terei alguém pra me dar aulas particulares.

- Se a senhorita Amanda tiver tempo. – uma voz nada amigável soou dura atrás de nós. Olhei para trás apenas para confirmar que era o Alex.

- Irmão, o que está fazendo aqui? - Luca disse sem olhar para sua versão puro estresse.

- Garantindo que ela não está matando aula para macaquices no shopping.

Macaquices? Ele está dizendo que eu pareço uma macaca? Será que ele não tem medo de morrer?

- Querido, para a sua informação eu sou a última pessoa no mundo que precisa de uma babá grande, chata e loira. – respondi, fazendo Luca reprimir um risinho.

- Grande? Ah, é mesmo, esqueci que para anões, qualquer pessoa de tamanho normal é um gigante. – Alex me lançou um sorriso de escárnio e saiu da sala.

- Não ligue. Você vai ter que aturar ele pelo resto da vida. – Luca disse distraído.

- Não demora muito até eu concluir o curso, não seja exagerado. – falei, dando um sorriso despreocupado. E ele me devolveu um de compaixão.

Que... Estranho.

O restante da aula se desenrolou normalmente, o que é muito raro. Luca fez com que a aula fosse muito engraçada, sempre tentando descontrair. E foi até paciente comigo, tentando me explicar algumas técnicas usadas nas pinturas. Claro que continuei sem entender, me sentindo incrivelmente estúpida.

“Agora quem precisa de aulas particulares sou eu”, pensei, me sentindo envergonhada.

As outras aulas se passaram rapidamente, até que deu o sinal para o lanche. Corri para o refeitório, desviando das mesas que aos poucos iam se enchendo de gente.

Antes de chegar à fila da cantina para pegar algo para comer, senti alguém puxando o passante da minha calça.

Uma pessoa não pode comprar comida em paz nesse lugar.

Era Julia, segurando dois bolinhos. Roubei um deles, dei uma bela mordida e disse:

- Minha salvadora!

- De nada, mal educada. – respondeu com uma careta, me arrastando para uma mesa perto da dos russos gatões que eu babava todos os dias. Claro que agora eu me recusava a ficar olhando para lá, já que o babaca do Alex também ficava naquele lugarzinho vil.

Claro que ele combinava muito com os russos, porque vamos falar a verdade: o Alex não é de se jogar fora.

Mentira, ele é melhor do que isso. Ele parece àqueles protagonistas de filme super gostosos que precisam tirar a camisa no meio da filmagem só para mostrar que são tão lindos que nenhum mortal pode ter eles.

- Se você pudesse me escutar, eu agradeceria. – gritou Julia no meu ouvido e estalando os dedos na minha frente.

Quando dei por mim, já estava sentada em um banco de uma mesa vazia, com Julia do meu lado meio irritada. E olhando bem os russos, consegui ver Julian encarando nós duas com cara de quem comeu e não gostou.

Isso quer dizer que a Julia arrastou ele até aqui só para vir conversar comigo. “Um para a amiga de infância. Zero para o noivo mal humorado.”, pensei, sorrindo ironicamente para ele e dando um tchauzinho. Julian continuou me olhando com os olhos frios e duros como pedra.

Que medo!

- Me conta exatamente o que aconteceu ontem, dona Amanda. – falou Julia.

Contei tudo para ela, cada detalhe. Até que ele me mostrou uma estufa de flores, sendo educado por um tempo. Claro que depois ele deu uma crise de sou-um-bipolar-esquisito e estragou tudo, mas essas coisas acontecem muito comigo.
Quando terminei de falar, Julia segurava o riso.

- Rir da desgraça alheia é pecado.

- Posso ser bem sincera? Você não vai se livrar desse homem tão cedo. – Julia disse, dando de ombros, como se ser perseguida fosse a coisa mais normal do mundo.

- Obrigada pela energia positiva. – falei. Dei uma olhadela na mesa dos russos e vi que agora não só Julian nos vigiava com cara feia, mas Alex também. – PERDEU ALGUMA COISA AQUI? – gritei para o loiro perseguidor de gente inocente, atraindo vários olhares de estudantes e até alguns risinhos dos russos.

Alex ficou vermelho como um pimentão e levantou bruscamente, vindo em direção da nossa mesa. Julian levantou-se ao mesmo tempo, andando mais rápido ate ultrapassar ele e se postar do lado da Julia.

Agora era uma ótima hora para se ter um noivo guarda-costas.

- Amanda, você me envergonha às vezes. – sussurrou Julia, olhando para o metido à modelo britânico que me encarava com fúria.

Ignorei-a e olhei ironicamente para Alex.

- Então você realmente perdeu alguma coisa por aqui? Mas foi o que exatamente? A sua educação? Não te ensinaram a não encarar moças indefesas no refeitório?

- Não te ensinaram a ser menos sem noção?

- Não te ensinaram a ser menos ridículo?

- Meu Deus, - Julia falou baixinho, cutucando seu noivo – eles são piores que meninos de jardim de infância.

Alex, com toda a sua impaciência, saiu do refeitório pisando duro, com os olhares dos russos todos sobre ele. E quem mais ria era Luca.

Eu estou tendo uma leve impressão de que as brigas que eu e o Alex tivemos entretêm muito o gêmeo bonzinho.

Luca levantou-se da mesa e andou até mim. Deu um sorrisinho amigável e sentou em uma cadeira vaga que tinha ao meu lado.

- E aquelas aulas particulares? Estão de pé? – Luca sorriu mais ainda, mostrando uma fileira de dentes brancos e certinhos.

Julia me encarava com um olhar insinuante, fazendo minhas bochechas formigarem. Fiquei tão sem graça que custei a responder alguma coisa.

- Claro. Hoje, logo depois das aulas?

- Pode ser. Vou te esperar no estacionamento e a gente estuda na minha casa. – antes de eu responder, ele levantou e também saiu do refeitório.

Deus, como pode um homem ser tão lindo assim?

Julia me assistia babar enquanto Luca andava e me deu um olhar reprovador.

- O que? Não era sempre você que empurrava homens para cima de mim? – soei mais defensiva do que eu deveria. Eu não tinha feito nada de errado, qual o problema?

- Ele não é o certo, sua bobinha.

- Eu tenho um certo agora?

- Claro. Todos nós temos um certo. – Julia olhou para Julian e sorriu maliciosamente.

- Ok, eu já entendi, vocês estão muito apaixonadinhos. Agora eu tenho que ir. – agradeci mentalmente quando escutei o sinal batendo e não precisei presenciar o romance estranho da Julia e do seu noivo com cara de mal humorado noventa por cento do tempo.

**

Depois da aula, encontrei Luca encostado em uma moto preta, que indicava perigo na certa. Ela era grande e... Assustadora. Dei uma boa encarada na moto e depois lancei um longo olhar para ele, indicando meu desespero.

- Calma, é só uma moto. Vou andar nela como se estivesse andando em uma bicicleta com rodinhas. – ele me confortou, e consegui me sentir um pouco aliviada. Mas não foi o suficiente, minhas pernas continuavam bambas até quando eu subi na garupa.

Luca ria como um garotinho levado que acabara de fazer uma traquinagem. E eu não sabia o que era pior: eu tremendo como uma vara de bambu ou os olhares raivosos que Alex me lançava, enquanto saia do Jeep pisando duro e vindo em nossa direção.

- Irmão, não é óbvio para você que a senhorita Amanda não esta a vontade para andar de moto? – Alex disse no seu tom mais cortês e frio.

- Na verdade, eu ia te pedir agora para... – Luca já ia respondendo seu irmão, mas de uma forma nada educada, o interrompi:

- Ninguém te perguntou nada. – ataquei Alex, com um olhar desafiador. Impressão minha ou ultimamente eu estava mais apta a brigas desnecessárias?

Pude ver que Alex engoliu toda a sua raiva, respirou fundo e tentou ser o mais polido possível:

- Eu posso te dar uma carona. No meu Jeep. Quentinho e seguro. – olhei para Luca para ver se ele aprovava a ideia, e pelo sorriso que ele me deu, só faltava me arrastar até o Jeep e me jogar lá dentro.

Bufei descontente e desmontei da moto, claramente mal humorada.

- Ótimo, mas se me sequestrar de novo, eu chamo o FBI para te prender. – falei. Queria deixar bastante claro que seqüestros não podem virar hábitos comuns entre nós dois.

Na verdade, o pronome nós nem existe. Existe eu. E ele. Dois mundinhos separados que eu não faço nenhuma questão de unir. Ponto final.

Lancei a Alex um olhar de superioridade – o mesmo tipo de olhar que ele costumava me dar – e marchei com um rosto carrancudo até o Jeep. Ele apenas me acompanhava com os olhos, com um claro sorriso de divertimento e vitória.

Enquanto eu entrava no carro, pude ver que os irmãos conversavam e davam risinhos. Se eu pudesse adivinhar, diria que Alex estava conspirando com Luca. E pelo jeito que os dois olharam ao mesmo tempo para mim, parecendo me estudar, eles conspiravam contra mim.

Nota mental: nunca acredite que existe um gêmeo bom e um mau. Os dois podem ser terríveis, só que um mais simpático do que o outro.

Luca deu partida na moto e foi embora, para a minha infelicidade.

Mesmo que ele tenha se bandeado para o lado inimigo – lê-se Alex – eu me sentia mais segura sabendo que se o irmão dele tentasse fazer alguma loucura comigo, ele me ajudaria.

Ou não, pensei com amargura.

Alex vinha a passos largos para o Jeep, parecendo mais relaxado. Coisa que era rara de se ver, já que noventa por cento do tempo ele estava bravo. Bravo comigo, é claro. Como se eu fosse um grande estorvo.

Ele entrou e deu partida, com um grande sorriso. E é claro que inconscientemente eu reparei que ele tinha lábios rosados e gordinhos. Que davam vontade de morder.

Meu Deus, os pensamentos impróprios eram a pior parte de ficar perto do Alex. Porque mesmo você odiando ele e o achando um grande metido, você reparava em cada detalhe do seu corpo ou do seu rosto, que eram perfeitamente esculpidos. E isso nunca acontecia com Luca.

Quando dei por mim, o carro já estava em movimento e chegando a sua casa. Que não era a mesma mansão que eu tinha ido antes.

 - Você mudou de casa? – perguntei, quebrando o longo silêncio que havia se instalado no carro.

- Aquela casa que eu tinha feito uma sopa para você era apenas temporária. Eu estava vivendo com o meu primo, Benjamin. Meu pai comprou uma casa. Ele meio que resolveu morar aqui.

- Por quê? – perguntei sem pensar, me sentindo envergonhada e intrometida quando ele me olhou com um sorriso cheio de mistérios.

- Você é muito curiosa para o meu gosto.

- Ainda bem que eu não faço o seu gosto. – falei com desdém, enquanto ele estacionava o carro dentro da mansão. Ele se limitou a dar um sorriso tenso.

Antes que eu pudesse soltar o cinto de segurança e sair, Alex foi mais rápido e deu a volta pelo carro, abrindo a porta para mim com uma cortesia exagerada. Aquilo havia me deixado desconfortável e sem graça. Mas não ousei ser mal educada, afinal de contar, não é todos os dias que vemos um homem ser tão cavalheiro assim.

Entramos na mansão e Alex me acompanhou até a sala de visitas, e me pediu que esperasse até que Luca descesse para me encontrar.

Enquanto esperava, batendo com os pés no chão compassadamente, vi que havia um homem no batente da porta me analisando com olhos críticos. Senti minhas bochechas arderem de vergonha e dei um sorriso tímido para ele.

- Você é a Amanda? – perguntou. Fiquei mais sem graça ainda. E não por ele saber meu nome, mas por pensar que um dos gêmeos havia comentado sobre mim para um desconhecido.

- Sou sim. E você é...?

- Roran Tarkovisky. O pai do Alex. – ele sorriu polidamente para mim. Um sorriso que me lembrava Alex.

O fato de ele não ter mencionado o nome do Luca me fez pensar que quem havia falado de mim para o pai foi o próprio Alex. E pelo sorriso que eu dei a mim mesma, senti que eu reagi positivamente demais sobre isso.

- Muito prazer. – levantei do sofá e apertei a sua mão direita, que estava estendida para mim.

Percebi que Alex estava atrás do pai, com uma expressão vazia. Quando Roran percebeu que eu olhava para trás, ele se virou. E seu rosto se transformou completamente, me deixando desconfortável com a situação.

- Pai. – murmurou Alex, com uma dura educação e uma leve inclinação da cabeça.

- Alex. – respondeu ríspido, dando a ele um olhar significativo. – Você não merece o que acabou de ganhar. – e saiu pisando duro da sala, deixando um loirinho irritado e amargurado totalmente para mim.

- Eu e meu pai não mantemos boas ligações. – disse Alex com a expressão mais neutra, apenas confirmando o que havia ficado mais do que óbvio para mim.

- Nem percebi. – dei de ombros. – Onde está Luca?

- Ele vai demorar um pouco. – disse Alex, parecendo mais feliz do que triste com isso. – Mas se você quiser começar a estudar, eu te levo até a biblioteca.

- Pode ser. – murmurei pegando minha bolsa.

Segui Alex até um cômodo separado da mansão, que ficava na parte de trás do jardim, e parecia uma casa de tamanho normal. Quando entrei dentro dela, fiquei de queixo caído. Várias estantes, todas elas preenchidas por livros de todos os tamanhos, tipos e capas diferentes.

Só dei conta que estava estática como uma estátua quando Alex me deu um leve empurrãozinho para frente, me fazendo dar passos vacilantes.

- Aqui é perfeito. – falei, me sentindo hipnotizada e maravilhada. E até mesmo com um pouquinho de inveja, por não ter uma biblioteca em casa.

- Luca me contou que você gosta de ler. – Alex respondeu, com um tom que eu não pude identificar se era de ciúmes ou de casualidade. – Parece que vocês estão se dando bem.

- Nós só conversamos na aula de História de Arte, - respondi – e eu contei o que era óbvio para todo mundo que me conhece.

- Não soou óbvio para mim.

- Talvez seja por que você não me conheça. – murmurei sem pensar, enquanto passava os dedos pelas capas dos livros de história.

Quando virei para trás, Alex estava sentando em uma mesa, lendo um livro e com uma expressão que parecia ser normal. Mas quando ele me olhou, vi uma aspereza nos seus olhos castanhos, que me deixou desconcertada.

Peguei um livro de romance qualquer, que havia um cowboy sem camisa na capa e comecei a ler. Alex levantou apenas os olhos, com uma cara desaprovadora para o pobre cowboy gostosão.

Ficamos em silêncio por mais ou menos três minutos, até que eu resolvi entrar em colapso por ficar tanto tempo calada e comecei a tagarelar rapidamente.

- O seu irmão ta me zoando, não é? Primeiro ele fala que precisa estudar para história da arte sendo que ele é um gênio e quem precisa de aulas sou eu. Depois ele me dá o bolo, me deixando aqui, com você, que provavelmente não sabe absolutamente nada de história. Se isso for parte de algum plano maligno entre gêmeos malvados que gostam de sequestrar jovens estudantes, fale agora e não me torture pelo amor de Deus. – falei em um só fôlego, fazendo com que Alex me olhasse com divertimento.

Claro, eu tinha esquecido que eu era a pequena boba da corte dos irmãos.

Levantei para colocar o livro de volta a estante e fiquei de pé de frente para Alex, que também se levantou e cruzou os braços na frente do peito.

- Estou começando a sentir que eu sou uma piada para você e o seu irmão. É isso o que eu sou? – esperei que ele respondesse, mas ele se limitou apenas a dar um sorriso frio. – Claro, eu sou uma palhacinha idiota para você e...

Antes que eu pudesse completar a frase, Alex me calou com um beijo, agarrando a minha cintura com uma mão e me colando ao seu corpo.

 Ele brincava com os meus lábios e passeava com suas mãos em minhas costas. Agarrei seu pescoço com os braços e o puxei mais ainda contra mim, como se eu precisasse disso para sobreviver naquele momento, prensando ainda mais nossas bocas. Eu estava completamente tomada pelo desejo.

Quando ele começou a descer os lábios pelo meu pescoço, fechei os olhos e uma parte do seu subconsciente começou a rezar para que o som que eu tinha acabado de emitir fosse apenas um suspiro inocente, e não um gemido de prazer.

Alex parou e me olhou nos olhos, me deixando completamente paralisada e abobalhada. Sua feição mudou de séria para diabólica.

- E é assim que se cala a boca de uma tagarela. – ele sorriu vitorioso.

Pus o máximo de força nos meus punhos e o empurrei para longe, mas o único efeito que surtiu foi uma leve cambaleada para trás. Antes que ele protestasse, dei um estalado tapa na sua cara, que deixou seu rosto vermelho.

Eu estava sentindo um turbilhão de emoções dentro de mim, mas o principal deles era a mágoa. Como ele ousava me beijar e depois dizer que aquilo foi apenas uma forma de me calar a boca?

- Você cometeu dois erros hoje, Alex – murmurei com a voz perigosamente baixa. – Pior do que me mandar calar a boca é falar que fez isso com um estúpido beijo.

Pude ver que ele se sentia culpado, mas eu não iria ceder. Não agora.

Peguei minha bolsa e saí pisando duro até a porta da biblioteca, com o coração quase saindo pela boca. Parecia que a qualquer momento, aquele embrulho no meu estômago iria me fazer vomitar até as tripas.

Quando atravessei a porta, trombei com um Luca sorridente e feliz. Devolvi um rosto inexpressivo para ele, e o empurrei, liberando a passagem.

Saí correndo pelo jardim, escutando a voz do Luca gritar meu nome, desesperado. Dessa vez, eu iria embora a pé, não importava quem me oferecesse carona.

Eu precisava de um tempinho para pensar.

**

Depois de uma noite de muito brigadeiro, lencinhos ensopados de lágrimas e filmes românticos, acordei com os olhos repletos de olheiras e uma vontade de tirar férias para o resto da minha vida.

Mas acontece que nada é perfeito. E eu ainda tinha que ir estudar. E, infelizmente, ser obrigada a olhar na cara de um traste.

Tomei um banho quente para despertar, vesti minhas roupas, peguei minha bolsa e corri para a Meriel.

As aulas se passaram tranqüilas. Nos intervalos e na hora do lanche, não vi nem sinal do Alex.

Claro que na aula de História da Arte eu tinha que olhar na cara do sósia loiro que no momento, eu considerava tão idiota quanto o irmão.

Entrei na sala com o queixo para cima, nariz empinado, e sentei no mesmo lugar que eu tinha sentado ontem, ao lado de Luca. Cruzei as pernas e fiquei olhando fixamente para frente, esperando o sinal bater e o professor chegar.

- Será que alguém pode me explicar o motivo da milady estar tão ressentida? – indagou Luca, com um sotaque inglês que provavelmente deixava as meninas loucas.

Mas não essa menina aqui.

- Não sei. Pergunte para a sua consciência. Ou para o seu irmão, vai dar na mesma.

- Alex está fazendo a mesma coisa que você. – falou, fazendo biquinho. – Anda sua bobinha, eu quero saber o que aconteceu.

- Bom, você me deixou mofando na biblioteca, com o seu irmão mais do que estúpido, e quando eu comecei a falar, ele calou a minha boca de um jeito não convencional. – respondi, virando para ele e dando um sorriso falso.

- Jeito não convencional?

- Me beijou – sussurrei quando constatei que ninguém observava nossa conversa.

- Você poderia ter sido mais direta. – ele me olhou entediado, como se soubesse que aquilo iria acontecer. – Foi tão ruim assim?

- Sim – Não. Mas eu não iria dar o meu braço a torcer.

Luca sorriu.

- Você é uma péssima mentirosa.

Virei para frente e mordi os lábios com força, tentando afastar a lembrança do beijo, que me deixava embaraçada, desconfortável e o pior de tudo: tentada a beijá-lo de novo.

E de novo. E de novo.

Acordei dos meus pensamentos quando vi minha visão sendo bombardeada por um buque de flores, e era um menininho loiro, de olhos verdes claros por trás de um óculos, que segurava.

- Para você – ele murmurou, me entregando, saindo correndo da sala, provavelmente assustado com todos os olhares em cima dele.

Todo mundo me encarava, e eu só queria achar um buraco para enfiar minha cabeça. O professor estava meio estressado, já que por minha culpa – melhor, culpa da criança -, ele havia interrompido sua aula.

Coloquei o buque de lado e peguei o bilhete. Antes, que eu começasse a ler, o professor me deu um aviso:

- Espero que essa seja a última vez que seus admiradores mirins venham entregar flores na minha aula.

Algumas risadinhas foram ecoadas na sala. Menos a de Luca, que havia sido uma gargalhada em alto e bom tom.

- Primeiro o meu irmão. E agora meu priminho. Amanda, você ta saindo como uma arrebatadora de corações na minha família. – ele falou, atraindo atenções e arrancando risadas de todo mundo.

Isso foi maldade. Tentei mostrar um pouco da dignidade que me restava no momento, levantando o queixo e dizendo pausadamente:

- Isso... É... Ridículo.

- Senhorita Amanda, - falou o professor – já que você foi a causadora de tamanha algazarra na sala, você poderia se retirar?

Olhei para ele, descrente do que estava ouvindo. Peguei o buque com raiva, minha bolsa, e saí pisando duro, sentindo os olhares de todos os alunos nas minhas costas.

Lembrei que deixei o bilhete em cima da carteira e grunhi de ódio.

Agora eu não fazia ideia de quem havia mandado o enfadonho presente.

Céus! Por que isso tem que acontecer comigo?!

- Além de baixinha e estressada ainda é mal agradecida. - Uma voz familiar soou por perto quando entrei na biblioteca.

Alex estava a poucos passos de distancia, sentando de modo confortável com um livro na mão. Raios de sol vindos da grande janela às suas costas brincavam com seus cabelos, fazendo-os reluzir de um modo fofo... Que não tinha nada a ver com o sarcasmo em sua face.

- Não sei pelo que deveria agradecer. - Falei tentando controlar a voz, sabendo que minha vontade era gritar que ele e seu mundinho rico e sua família estúpida deviam explodir.

Ele apontou o queixo para as flores, o rosto inexpressivo.

- Não sei no que isso lhe interessa, mas diga ao seu priminho que foi fofo da parte dele me fazer ser expulsa da sala antes de poder falar "a". - Sim, eu estava estressada, dá licença? Meu dia está péssimo e a última pessoa no mundo que eu quero ver é esse bipolar estúpido que começou a rir baixinho.

- Baixinha absurda. Não sabe ler cartões?

Por que ele tinha que ficar malditamente sexy com aquelas sombras no rosto devido ao sol brilhando às suas costas?

Murmurei colocando meus pés em marcha para o fundo da biblioteca... Lê-se: para longe dele.

Mas é claro que antes de eu dar mais de cinco passos, mãos seguraram meus ombros e me viraram para o louro. Oh, aqueles lábios deliciosos estavam perto... Pare de olhar pra eles Amanda!

- O que está fazendo? Me solta! - Resmunguei encarando seus olhos, que estavam exatamente sobre meus lábios.

Ahá! Vai dizer que foi só pra me mandar calar a boca agora?

- Não até você me agradecer pelas flores. - Ele ergueu a sobrancelha, voltando o olhar para meus olhos, embora eles descessem para meus lábios a cada segundo.

Se ele me beijar agora, tenho certeza que o chão não será o suficiente para me segurar... Espera aí. Porque eu deveria agradecer... Oh. O garotinho era primo dele. É claro que não tenho um admirador mirim. Deixa de ser estúpida, Amanda, é tão óbvio.

- Eu adoraria deixar você saber, que amei esse enorme buque, Alex. Obrigada por me proporcionar algo que facilmente pode se tornar uma arma.

- Do que...

Antes de ele terminar a frase, coloquei toda minha força e acertei seu rosto em cheio, as rosas despetalando-se todas e os espinhos arranhando suas bochechas.

- Você é louca? - Vociferou, apertando meus ombros ainda mais e me trazendo para mais perto, antes de me jogar sobre os ombros e me carregar para fora dali como uma boneca de pano.

Eu me contorcia em suas costas, completamente ciente de que era uma péssima ideia porque minha blusa estava subindo e me deixando quase nua. Assim que saiu pela porta da biblioteca comecei a gritar que me soltasse.

Ele entrou em uma sala vazia e me colocou sentada em uma cadeira antes de fechar a porta e trancar.

- Você acha que um bando de rosas estúpidas iria servir como um pedido de desculpas? – gritei, levantando da cadeira.

- Claro que achei! Que menina não gosta de flores? Claro, a mesma que não gosta de borboletas. – exclamou incrédulo, andando de um lado para o outro e tentando conter a fúria que eu poderia sentir de longe.

Uma lástima que o buquê não fosse pesado o bastante para deixar Alex inconsciente. Uma lástima!

- Eu não sou como as outras garotas, que gostam de coisas idiotas e sem sentido.

- Se pelo menos você fosse igual às outras, te conquistar não seria um trabalho tão árduo. – seus olhos praticamente faiscaram de raiva. E eu o olhei com a boca entreaberta.

- Então é isso, - eu dei uma bela gargalhada irônica. – tudo se passou de um joguinho psicótico que você criou dentro da sua imaginação fértil, achando que eu iria amar suas crises de bipolaridade. Guarde suas artimanhas esquisitas para outras da universidade. Elas parecem gostar muito de você.

- Eu não quero as outras. – gritou. – Eu quero você.

- Isso é obsessão, Alex!

- Não, isso é amor. Eu te amo. – ele falou rápido, provavelmente mal medindo o peso que as palavras tinham.

Mas pelo olhar penetrante e significativo que ele me lançou, a coisa era séria.

Meu estômago começou a fervilhar, e eu não sabia o que dizer. Amanda, essa não é uma boa hora para vomitar!

- Você poderia ter me contado antes. – minha calma excessiva provavelmente tinha denunciado meu desespero. Isso e as minhas mãos que não paravam de suar.

- Não, eu não poderia. Eu não quero te colocar na minha vida. É mais complicado que parece. – fiquei inexpressiva por um momento, enquanto Alex me olhava perturbado.

Claro. Eu era apenas uma garotinha qualquer sem dinheiro. E ele um jovem rico e bonito que tinha tudo o que quisesse apenas com um estalar de dedos. Faz todo o sentido.

- Então saia da minha vida. – minha voz saiu sem vida, fraca e monótona. Sentia os meus olhos arderem em lágrimas, mas eu não iria chorar. Não na sua frente.

Alex parecia ressentido e chocado. Saiu da sala, batendo a porta e fazendo um estrondo.

Sentei de novo na cadeira, debrucei em uma carteira, e permiti que as lágrimas descessem.

Capítulo IV 


Luca

Encontrei Alex no seu quarto, esmurrando sem dó nem piedade um saco de pancadas, sem luvas de boxe. Os nós de seus dedos pareciam arroxeados, mas se ele estivesse sentindo alguma dor física no momento, era impossível de descobrir.

Toda aquela violência desnecessária só poderia significar alguma coisa. Amanda.

- O que ela fez dessa vez? – perguntei com a voz suave, tentando não o irritar mais ainda.

Alex ainda não havia percebido a minha presença na porta, e parou de dar socos e chutes, com uma expressão assustada. Parecia que estava muito concentrado em não se concentrar no mundo em sua volta.

- Que? – ele perguntou ríspido.

- Perguntei o que a Amanda fez. – falei com uma expressão claramente entediada.

- Ela tomou sua decisão. – respondeu, voltando a socar mais forte ainda o saco vermelho. – Não vou mais procurar ela. E eu quero que você também se afaste.

O encarei incrédulo.

- Será que você poderia me explicar melhor?

Ele pegou uma toalha, secou o suor da testa, e me lançou um olhar frio.

- Ela falou que não me quer na sua vida. Ela não me ama, Luca. Agora eu estou condenado a perder a minha parte humana para sempre. Satisfeito?

Não, eu não estou satisfeito, pensei. Tinha alguma coisa muito errada nessa história. Amanda nunca seria insensível desse modo.

- Isso não parece certo. – murmurei mais para mim mesmo, atraindo a atenção de Alex. – Amanhã eu converso com ela e...

- Fique longe dela. – ele grunhiu. – É uma ordem.
Dei de ombros, indiferente, e sorri do modo mais inocente que eu consegui. 

- Claro. Quem sou eu para te desobedecer. – saí do quarto, deixando ele lá, todo nervosinho. 

Claro que na verdade, ele estava morrendo por dentro. Mas eu iria dar uma de cupido, e resolver toda essa situação. Meio gay, mas o que a gente não faz pela família? 

** 

Amanda

Era a segunda vez que eu voltava para casa deprimida. E as duas vezes foram culpa do Alex. Pelos motivos mais clichês do mundo. 
Ele me ama, mas não quer ficar comigo porque eu era a mocinha de classe média baixa e ele era o ricaço gatíssimo. De repente minha vida havia se transformado em uma estranha novela mexicana. 

Mas eu não entendia. Como ele pode me amar tão rápido, sendo que nos conhecemos há pouco tempo, e os nossos encontros tinham mais brigas do que conversas civilizadas? 

E como eu sentia meu coração tão machucado? Toda vez que eu pensava nisso, eu sentia uma pontada no peito, me acusando que eu havia feito uma coisa muito errada. 

Fiz o que eu tentei fazer o dia inteiro: ignorei a dor e pensei em coisas melhores. De tanto pensar, caí de costas na cama e decidi que eu não iria ser mais a Amanda de antes. Chega de filmes de romance e ilusões. Nunca dá certo. 

Nunca dá certo. Nunca dá certo...

- Nunca dá certo... – murmurei sem perceber, olhando para o teto do meu quarto. 

- O que não dá certo? – dei um pulo na cama, com o coração saindo pela boca. Era Luca, entrando no meu quarto. 

- O que você está fazendo aqui? – gritei, pegando a primeira coisa que vi na frente para arremessar na cara dele.  O ameacei com um abajur velho, balançando na sua frente. – Como você sabe que eu moro aqui?

- Calma. Você deixou a porta do apartamento aberta e eu entrei. E eu tenho os meus contatos, foi fácil achar seu prédio. – ele levantou as mãos, em sinal de rendição, dando uma doce risada. – Vim em vim em busca de paz. 

- Paz? – esbravejei. – Me fez ser expulsa de sala e todo mundo riu da minha cara. Isso me deixou irada, sabia? 

- Tem certeza que foi apenas isso? – ele levantou as duas sobrancelhas e se aproximou mais de mim. Dei um passo para trás, ainda segurando o abajur de forma ameaçadora. – Acho que isso tem haver com meu irmãozinho. 

- Quer saber de uma coisa? Tem mesmo. Tem haver com Alex, com você, com sua família cheia de grana. – falei, soltando a minha arma improvisada e indo socar o peitoral de Luca. Ele nem cambaleou. – Odeio vocês. Odeio. Odeio. 

Quando dei por mim, estava abraçando ele forte. Mesmo sendo um idiota que me fez ser expulsa de sala, ainda o considerava um amigo. O único que estava por perto, no momento. 

Ele se separou de mim delicadamente, e me sentou na cama, tentando conter a minha histeria. 

- Eu não quero falar sobre isso. – disse, com a voz saindo meio falha. 

- Você não precisa. – respondeu. – Mas eu só queria que você soubesse que você é a única para Alex. E eu sei que você sente algo por ele. Se você não decidir rápido esses sentimentos, coisas ruins podem acontecer. – ele massageou as têmporas, provavelmente pensando nas coisas ruins. - Se você quiser, você pode conversar comigo na aula de história. Eu sou um verdadeiro ombro amigo. – sorriu.  

Ele saiu do quarto, me deixando absorta nas suas palavras. Coisas ruins. Ele havia sido muito misterioso, atiçando minha curiosidade. 

Levantei para trancar a porta de casa, e, deitei na cama, sentindo que o que Luca falara não era brincadeirinha. 

** 

Alex

Depois de ter passado um dia treinando boxe e jogando para fora toda a minha amargura, fui para a faculdade, tentando não passar por nenhum lugar que eu pudesse encontrar Amanda. 

Claro que quando Luca viu o que eu estava fazendo, me passou o maior sermão. E também é claro que eu ignorei cada palavra que ele dizia. Ele nunca havia sido rejeitado por uma consorte. 

Ele nem tem uma. Então não tem crédito nenhum para me dar lição de moral. 

Na hora do lanche, sentei em uma mesa, sozinho e isolado, com o olhar mais vago que pude. Aquilo significava que eu queria que ninguém me incomodasse. 

Claro que Luca ignorava todo e qualquer conceito sobre isolamento. Sentou do meu lado e começou a comer. 

- Eu não quero a sua companhia. – falei, sem nem olhar para sua cara. 

- Claro que não. Você provavelmente quer a companhia de outra pessoa. Certa pessoa. – ele sorriu maliciosamente, e eu senti vontade de vomitar. 

- O que você quer? – perguntei ríspido. 

- Quero que você se passe por mim na aula de História da Arte e converse com a Amanda. – falou direto e entediado, como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo. 

- Não, ela já deixou seus sentimentos por mim bastante claros. – olhei para ela rindo com um grupo de amigos do outro lado do refeitório e me senti tomado pela inveja. 

- Na verdade, não. Ela me pareceu confusa ontem. 

- Mesmo depois de ter te falado para se afastar dela, você foi a procurar? – falei com os punhos cerrados, prontos para dar uns cascudos na cabeça loira do meu irmão. 

- A única coisa que eu escutei ontem foi você falando “blá blá blá, Amanda, blá blá blá”, e os seus socos em um saco de boxe. – enquanto ele tagarelava, voltei olhar para onde ela estava sentada, respirei fundo e resolvi aceitar a proposta do meu irmão. 

- Ok. Eu vou se passar por você. – Luca me olhou como se não acreditasse no que eu estava dizendo. Nem eu mesmo acreditava. 

- Então está ótimo. – ele falou, animado até demais. – No último horário, não se esqueça. 

Ele saiu da mesa e foi para a mesa dos russos. E eu fiquei pensando no que dizer para ela quando eu for me passar pelo Luca. 

Amanda

Entrei na sala de História da Arte decidida. Eu iria contar o que havia acontecido com o Alex para Luca. E ele saberia me aconselhar. Saberia como me confortar. 

E eu confessaria de uma vez por todas que tinha uma pequena possibilidade de eu estar completamente apaixonada pelo Alex. Não sei como, nem porque, mas se o coração quer, quem sou eu para discutir? 

Quando sentei em minha carteira, senti uma movimentação atrás de mim. Virei para trás, e dei de cara com Alex. 

Antes que ele fugisse de mim – coisa que ele tinha feito o dia todo, me irritando muito -, fui mais rápida, falando:

- Alex, a gente precisa conversar.

- Amanda, não é o Alex. – ele respondeu. – É o Luca. 

- Não, você é o Alex. – falei, morrendo de vergonha. Não era possível, eu nunca confundia os dois, e além do mais, ele era muito carrancudo para ser o Luca. 

- Esqueceu de tomar os seus remédios para loucura? – murmurou com um sorriso simpático, sentando na carteira ao lado. Acho que eu estou ficando obcecada pelo Alex, pensei, vendo que aquele deveria ser realmente o Luca. 

O professor entrou na sala com um sorriso presunçoso, me encarando.

- Espero que a senhorita Amanda se comporte hoje. – ele falou, para que toda a sala ouvisse. Claro, a minha seção de humilhações nessa aula estava ficando comum. 

O professor propôs uma atividade em dupla, distribuindo variados temas de trabalho, para que os alunos trocassem ideias. 

Eu chamei Luca, que se limitou a responder apenas com um aceno de cabeça e um sorriso de tirar o fôlego. Senti meu coração ir a mil por hora. 

Ele estava muito parecido com o Alex. 

Juntamos nossas carteiras e eu decidi começar a falar antes de começarmos a fazer o trabalho. 

- Luca? – perguntei tímida. 

- Sim? – ele me olhou, e eu senti minhas bochechas arderem. 

Que merda é essa que esta acontecendo?

- Ontem você me falou para decidir os meus sentimentos. – falei baixinho, olhando para os lados. – Pelo Alex. – sussurrei, fazendo-o sorrir deslumbrante. 

- E o que você decidiu? – ele perguntou, aproximando seu rosto do meu. 
Aquele sentimento de “isso não vai prestar” me invadiu. 

Virei à cara e apoiei meu rosto em minhas mãos, sentindo minhas bochechas arderem mais ainda. E olha que eu nem comecei a falar. 

- Eu estou perdidamente apaixonada por ele. – minha voz saiu esganiçada, e eu me dei um soco mentalmente. Não era para eu ter soado tão... Melosa. 

Ele voltou a seu lugar e encostou as costas na cadeira, esticando as pernas e cruzando os braços. Tinha um sorriso enigmático nos lábios. Sem olhar para mim, ele falou: 

- E se eu dissesse que você acabou de confessar isso para o próprio Alex? 

- Eu provavelmente cavaria um buraco no meio da sala e enfiava a minha cabeça. – respondi, rindo muito e imaginando a cena. 

Luca me deu um sorriso irônico. Irônico demais. 

Oh, não!

- Então pode começar a cavar, minha princesa. – ele pegou a minha mão e beijou delicadamente. Puxei minha mão de voltar e o encarei incrédula. 

- NÃO ACREDITO QUE VOCÊ FEZ ISSO. – bati na carteira, atraindo os olhares de todo mundo da sala. – VOCÊ É UM INFANTIL, IMBECIL, IDIOTA. 

Antes que o professor me expulsasse de sala de novo, Alex me puxou para fora da sala pelo braço, me levando até o estacionamento e me jogando dentro do seu Jeep. 

Ele entrou também, e ficou me encarando com um sorriso sexy demais. Fiz a minha melhor cara de emburrada e fiquei observando o nada. 

Achei que ele iria falar alguma coisa, mas ele apenas se limitou em pegar meu rosto com as mãos e me beijar. Derreti completamente, e em um ato de impulso, saí do banco e quando dei por mim, estava no colo dele, sentindo seus lábios trilhando um caminho de beijos pela minha clavícula e suas mãos apertando minha cintura com força. 

- Alex, para, para. – murmurei, tentando conter meu desejo. Empurrei sua cabeça para trás e ele me encarou com uma cara de cachorrinho abandonado. – Você me enganou. Fugiu de mim o dia todo, e me enganou. Por quê? 

- Luca me convenceu. – ele respondeu, chegando mais perto de mim e me roubando um selinho. – E você queria que eu saísse da sua vida. 

- Você me falou que não me queria na sua vida. – ataquei com rispidez na voz. – E provavelmente ainda não me quer, já que eu continuo sem dinheiro, e você continua rico. 

Vi em seus olhos um desentendimento muito grande. 

- Não foi isso que eu quis dizer. – ele passou a mão pelos cabelos loiros, me dando mais um beijo e me colocando de volta no banco do carona. – Eu vou te mostrar a verdade. 

Ele deu partida no carro, ignorando o fato de que todas as minhas coisas no momento estavam na faculdade. Minha bolsa, meus livros, meu lanchinho da tarde. 

Vi que ele dirigia até a mesma fazenda que a gente tinha ido antes. Raio de Sol. 

Alex estacionou o carro, saiu dele e abriu a porta para mim, me oferecendo sua mão com um lindo sorriso. 

- Tenho que te mostrar uma coisa. 

Ele me puxou até um celeiro que tinha muito atrás da fazenda. Tinha até que passar por uma pequena trilha de pedras até chegar ao lugar.

Entramos lá dentro e ele fechou as portas. Apenas algumas frestinhas de luz entravam, o que não tornava o lugar escuro. 

- Prometa que não vai sair correndo. – ele disse com preocupação e medo no olhar, me segurando pelos ombros e me sacudindo. 

- Prometo, prometo. – respondi indiferente. – Mas o que é exatamente o que você vai me mostrar? 

Ele sorriu e começou a se despir. Quando ele estava só de cueca, ele me encarou sorrindo maliciosamente. 

- Confie em mim. – ele disse. – E tente não olhar para a minha bunda. Fique parada e não faça movimentos bruscos. 

Ele virou de costas e abaixou a cueca. 

- Mas que merda é... – antes que eu completasse a frase, ele espirrou. E se transformou em um lindo e majestoso tigre branco.

Abafei um grito, com a boca e fiquei paralisada, achando que em qualquer momento o felino iria me atacar. 

- Gatinho bonzinho, gatinho bonzinho. – murmurei, com um riso nervoso. 

Ele se aproximou de mim, me rodeando e, para a minha surpresa, lambeu minha mão. Dei uma risada maior. Mas agora não era de nervoso. Era de maravilhada.

Acariciei a sua cabeça e o puxei mais para perto, o abraçando. Sua pelagem era fofa, e fez com que eu quisesse ficar paparicando ele por mais um bom tempo. 

- Isso é incrível. Eu estou alucinando? – perguntei para o tigrinho. 

Ele se afastou, espirrou de novo, e se transformou no Alex. Nu. Não pude deixar de dar uma olhada no seu equipamento, mas desviei o olhar sem graça. Seu corpo era cheio de gominhos no abdômen, mas nada exagerado. Seus músculos eram magros, normais, mas bem definidos. 

Me esforcei ao máximo para não ficar encarando diretamente. 

Antes de falar alguma coisa, ele vestiu a cueca e a calça, deixando a blusa no chão. 

- Você é um tigrinho. Um tigrinho. Um tigre. Você é um animal. Literalmente. – falei, dando um passo para trás e colocando as mãos na boca. 

- Eu posso explicar. – ele falou, parecendo preocupado com o que eu iria pensar. Continuei afastada, achando que se eu aproximasse dele, tudo iria se transformar em névoa e eu iria acordar de um sonho maluco. – Isso é fruto de uma maldição.

Ele me explicou toda a história. Da mulher que havia amaldiçoado a sua família e outras a muito tempo atrás. Que os condenou a se transformar em tigres e que cada um deles tem uma consorte. A sua parte humana. A única mulher que eles amam pela vida inteira. E que eles identificam pelo cheiro. 

- Então, - falei sem graça. – eu sou a sua consorte, certo? 

- Certo. – ele deu três passos até mim e pegou minhas mãos, beijando as duas. – Tudo bem para você? 

- Para mim? Bem. Muito bem. Bem, bem, bem. Melhor impossível. – ele riu da provável cara de perturbada e me puxou para mais perto, colando os nossos corpos. 

- Eu sei que é muita informação, - ele falou – mas a única coisa que você precisa se lembrar é de que eu te amo. 

De repente, eu me dei conta de que nada disso importava. E daí se eu estava apaixonada por um tigre branco presunçoso? 

Fiquei na ponta dos pés e o beijei, mordendo de leve seus lábios. Ele sorriu entre o beijo. Passei a palma das mãos pelo seu peitoral definido e sorri para ele. 

- Eu posso me acostumar. – murmurei, esbarrando sua boca na minha. Antes, uma questão passou-se pela minha cabeça. Empurrei seu peitoral, fazendo com que ele me olhasse com uma expressão pidona, que queria mais beijos. – Então nós estamos namorando? Por que você não me pediu em namoro. – arqueei as sobrancelhas, enquanto ele me encarava incrédulo. 

- Eu praticamente acabei de te explicar que eu te amo eternamente e você está me perguntando se a gente está namorando? – ele rolou os olhos, o que me irritou muito. – Não é obvio? 

- Claro que não! – exclamei exasperada. – Você não disse as exatas palavras. E se meu pai ficar sabendo disso, ele vai ficar irado. E ele é mais bravo do que qualquer tigre. 

- Quer ser a minha namorada? – ele perguntou entediado. 

- Sim. – respondi ríspida. Ele sorriu irônico e me pegou no colo, saindo pelo celeiro me carregando. Protestei alto, arrancando risadas maléficas dele. 

Quando a gente chegou à mansão da fazenda, entramos pela porta dos fundos, que dava na cozinha. Ele só me colocou no chão quando viu um casal de velhinhos nos encarando com um sorriso cúmplice. 

- Então, essa é a nossa doce Amanda. – a mulher falou com a voz fraquinha, me puxando para um abraço apertado. – Já escutei Alex falando muito sobre você. 

Sorri implicante para Alex. 

- Ah, é mesmo? – disse no meu tom mais irônico. – E o que ele falou de mim? 

- Bom, - a velhinha colocou a mão no queixo, e fez uma expressão de quem queria se lembrar de algo, mas acabou esquecendo. - ele falou que...

- Você é uma baixinha que come mais do que deveria e que pode acabar tendo um problema de saúde por isso. – Alex respondeu na sua frente, usando o mesmo tom irônico que eu havia usado. 

Os dois velhinhos provavelmente não notaram isso, sorrindo ainda mais. 

- Elisa também me saiu como uma grande comilona. – o vovô falou, olhando para a velhinha e sorrindo com amor. Meu coração derreteu com aquilo. – Meu nome é Joshua. – ele me deu um abraço apertado. – Bem vinda a família. 

Murmurei um obrigado muito sem jeito. Alex vendo que eu me sentia desconfortável, pediu licença aos avós e me levou até o jardim da fazenda. 

- Estranho. Mal cheguei aqui e já sou da família. – falei rindo e andando na frente por entre as flores. 

Alex me acompanhava por trás, parecendo observar cada um dos meus movimentos. Como ele pôde passar de irritante para fofo?

- Você sempre foi, nanica. Só que não sabia. – ele respondeu, colocando as mãos na minha cintura e me conduzindo, com a respiração morna na minha nuca. 

Senti vontade de perguntar sobre seu pai. Mas fiquei meio acanhada. Era um assunto muito particular, provavelmente cheio de ressentimentos, já que no dia que eu vi Roran, ele mal conseguia olhar para o filho, e vice-versa. 

- Alex? – falei baixinho, enquanto ele apertou minha cintura, me parando e virando para ele. 

- Sim? – ele levantou as sobrancelhas, esperando que eu falasse alguma coisa. 

- Você e seu pai não se dão bem, não é? – confirmei o óbvio, dando uma de desentendida. 

- Não. – ele deu um sorriso triste. – Nós vivemos em conflito. Ele gosta de mandar em tudo e em todos, e às vezes tem umas crises de mau humor que nem o Luca agüenta. 

Reprimi um sorriso, mas sem sucesso. Claro, todos eles são farinha do mesmo saco. 

- Acho que você tem muito em comum com o seu pai. – lancei a indireta mais direta do mundo. 

Ele me olhou com um falso desentendimento e colou nossos lábios, sorrindo entre o beijo. 

- Não sei do que você está falando. – murmurou. 

Sorri irônica. 

- Agora que eu sei que você é um tigre, e essas paradinhas aí, eu mereço várias questões esclarecidas. – cruzei os braços e fiz uma pose séria. 

- Que tal a gente deixar as perguntas de lado e fazer coisas mais produtivas? – falou, me puxando pelas mãos e colando nossos corpos. 

Ele enterrou a cabeça na curva do meu pescoço e inalou meu cheiro, me fazendo arrepiar da cabeça aos pés. 

- Como o que? – perguntei, fazendo carinha de inocente. 

Ele sorriu malicioso e me deu um beijo profundo. Antes de continuar, ele se separou de mim e disse:

- Entendeu? 

Murmurei um “uhum” e puxei ele pelo pescoço, prensando nossos lábios tão fortemente que ele conseguiu entender o meu recado. 

Eu não queria terminar aquele beijo tão cedo. 

De preferência, nunca. 























2 .:

  1. Ai, ai *suspira* esses tigrinhos e consortes conseguem arrancar cada suspiro meu, que vo te conta...
    ashuahushu... Me sinto uma ogra por ter desaparecido e não falar mais nada '-' Mas eu estou lendo, sempre que possível, os livrinhos que vc me enviou, colocando-me dentro do seu mundo aos pouquinhos... Oh Deus, vo faze uma novena pro Santo Antônio me arranja um tigrinho desses ashuahsua... Por q vo te conta heim... Ta dificil... Bonnie me passa o endereço do Meriel Center que estarei encaminhando os meus papeis de transferência da universidade para lá urgentemente, já que é aqui no Sul mesmo ^^ Levarei meus bloquinho e canetas para conseguir autografos de todo mundo ;D Tirando toda essa onda de fangirl, adorei a fanfic... Bjs!

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  2. Amei, Amei e Amei esse casal *-*
    Não consegui desgrudar um segundo os olhos dessa fanfic! Mais um thrp para amar né *-*
    Ou melhor, dois, já que esses são gêmeos, né

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:) :,( ;) :D :-/ :? :v X( :7 :-S :(( :* :| :-B ~X( L-) =D7 :-w s2 \m/ :p kk